Entrevista com KEVIN MITNICK

Cultuado na internet como o maior hacker de todos os tempos, o americano Kevin Mitnick, de 40 anos, tornou-se celebridade aos 17 ao invadir o sistema do Comando de Defesa Aérea dos Estados Unidos. Antes de completar 18 anos já estampava páginas de jornais e revistas com uma habilidade incomum e inédita para a época: destrinchar complexos programas de computador. A brincadeira tomou proporções perigosas quando desafiou gigantes da tecnologia como Motorola, Nokia, Novell e Sun Microsystem.

Em 1993 ele foi caçado pela polícia e, dois anos depois, preso pelo FBI, acusado de causar prejuízos superiores a US$ 80 milhões. Condenado, amargou cinco anos na prisão e ficou mais três em liberdade condicional, proibido de chegar perto de computadores.

Nem assim perdeu a fama de fora-da-lei mais admirado da rede mundial. Pela primeira vez no Brasil, Mitnick será a estrela da IT Conference, encontro que reunirá mais de 800 profissionais de tecnologia entre os dias 17 e 19, em Salvador. Em entrevista exclusiva a ÉPOCA, ele descreve o prazer de voltar à web e explica como atuam os hackers do novo milênio.

ÉPOCA – Você ainda sente vontade de invadir sistemas?
Kevin Mitnick – Não. Estou mais velho e mais sábio, superei essa fase. Meu trabalho é até parecido com o que eu fazia, mas jogo no time adversário. Ajudo empresas, universidades e órgãos de governo a proteger seus sistemas. Se eu pudesse, voltaria atrás e daria outro curso a minha vida. Sempre quis ser reconhecido por minhas habilidades, mas não do jeito que aconteceu.

ÉPOCA – Como você avalia a segurança na rede hoje em dia?
Mitnick – A falta de segurança é um problema sério e, infelizmente, muitas universidades, empresas e muitos órgãos do governo não se exercitam, não se atualizam. Eles deixam seus sistemas vulneráveis a ataques e não têm o mínimo de perspicácia para perceber falhas humanas, cada vez mais exploradas por hackers.

ÉPOCA – Em sua passagem pelo Brasil você vai falar sobre ‘engenharia social’. O que é isso?
Mitnick- É uma técnica usada por hackers para manipular e persuadir os funcionários nas empresas. Em vez de ficar se descabelando para encontrar uma falha no sistema, o hacker pode, por exemplo, largar um disquete no chão do banheiro com o logotipo da empresa e uma etiqueta bem sugestiva: ‘Informações Confidenciais. Histórico Salarial 2003′. É bem provável que quem o encontre o insira na máquina por curiosidade. O disquete pode ter sido preparado por um hacker para rodar na máquina da vítima e instalar um tipo de programa chamado Cavalo de Tróia, que dá acesso remoto à rede da empresa.

ÉPOCA – Você pode citar outro método comum de persuasão?
Mitnick – O velho e bom amigo telefone. Alguém liga para você dizendo que trabalha no departamento de tecnologia e que está verificando um problema na rede. Faz uma série de perguntas, pede para você digitar alguns comandos e cria um buraco na segurança. Parece tolice, mas 50% das invasões não se valem apenas da tecnologia, mas principalmente da fragilidade humana. A dica para os funcionários é checar a identidade de quem ligou e, para as empresas, adotar políticas de segurança e treinamento intensivo. O mais importante é demonstrar que todo mundo é vulnerável e pode ser manipulado, principalmente os que se julgam mais inteligentes. Eu já fui ‘hackeado’, achei engraçado na hora, mas depois parei para pensar e vi que tinha algo errado. Em meu livro, A Arte de Enganar, citei alguns exemplos, mas há sempre novas técnicas de persuasão.

‘Em vez de ficar se descabelando para encontrar uma falha no sistema, o hacker pode largar no banheiro um disquete infectado, com o logotipo da empresa e uma etiqueta bem sugestiva: ‘Informações Confidenciais. Histórico Salarial 2003′. É provável que alguém o encontre e insira na máquina’

ÉPOCA – Como foi ficar sete anos sem acessar a internet?
Mitnick – Foi terrível. Eu me senti excluído da sociedade e à margem de tudo o que acontecia no mundo. Eu vivi o nascimento da internet e vibrei com ele, e, de repente, aparece uma grande lacuna em minha vida. Em 1995, eu nem imaginava que em tão pouco tempo teríamos internet de alta velocidade. Ainda estou me readaptando aos avanços e tenho aproveitado bastante as novidades que se aplicam a meu trabalho. Mas não sou o mesmo expert de antes. Há uma infinidade de informações que ainda não pude utilizar.

ÉPOCA – Como foi ser libertado, mas continuar proibido de usar computadores durante seu período de liberdade condicional?
Mitnick – Não poderia haver castigo pior. Eu ficava sentado atrás de meus colegas tentando captar um pouco daquele mundo mágico que eu ainda não conhecia. E só senti o sabor da liberdade, de fato, quando sentei em frente a um computador e me conectei. Foi extraordinário.

ÉPOCA – Como era ‘hackear’ um site em 1995?
Mitnick – Nunca ‘hackeei’ um website nos modelos do que temos hoje (www), pois eles não existiam naquela época. A internet era algo muito novo em 1995 e só se tornou comercial depois que fui preso. Meu passatempo preferido era o Fun Freaking, que consistia basicamente em invadir sistemas telefônicos. Na infância, eu adorava brinquedos que usavam tecnologia e, na adolescência, chegava a passar 16 horas na frente de um computador para descobrir uma senha.

ÉPOCA – Qual era a sensação de invadir sistemas?
Mitnick – Era melhor que vencer um jogo de computador ou tirar um 10 na escola. Eu me sentia poderoso, invencível. O mais excitante é que sempre havia algo mais complexo para me desafiar. Já cheguei a viajar para Londres só para invadir o sistema de um pesquisador de segurança. Ele ficava em casa e dificilmente se conectava com uma rede ou linha telefônica. Só seria possível se eu estivesse fisicamente na Inglaterra. Foi o que fiz. Viajei para lá e invadi. O único problema é que os sistemas operacionais são propriedade particular, e isso fez toda a diferença em minha vida (risos).

ÉPOCA – Qual era sua motivação?
Mitnick – O desafio intelectual, a busca pelo conhecimento e a aventura de estar num lugar onde não deveria estar. Comecei aos 17 anos e só parei quando fui preso. Mas eu não era o hacker temido como pintam por aí, um fora-da-lei que cria e espalha vírus. Eu era simplesmente um jovem curioso que buscava desafios em sistemas de segurança. Eu procurava brechas, e não informações. Jamais invadi um sistema para obter vantagens financeiras e até hoje não vi uma prova legal contra mim.

ÉPOCA – Mas o roubo de senhas significou perdas milionárias para as empresas.
Mitnick – Nem sempre. O valor do prejuízo foi bastante exagerado pelo governo federal. Quiseram me pregar a imagem de supercriminoso e colocaram em minhas costas valores bilionários. Veja só que loucura: para eles, o prejuízo que causei era proporcional ao dinheiro gasto com pesquisa e desenvolvimento de projetos, algo totalmente ridículo.

ÉPOCA – A exposição negativa curiosamente surtiu efeito contrário. Hoje você é cultuado por milhares de jovens na internet.
Mitnick – Fico feliz em saber que as gerações mais novas me admiram. Mas não encorajo ninguém a invadir computadores como fiz. Primeiro, porque não é algo socialmente aceitável, e segundo, porque vão ter sérios problemas com a Justiça. Eu errei, faço questão de dizer isso a elas.

ÉPOCA – Você tem um ídolo?
Mitnick – Na verdade não tenho um ídolo, apenas pessoas que admiro bastante, como Steve Jobs, um dos inventores do computador Apple. Ele é bem-sucedido nos negócios e ainda se preocupa com as pessoas mais pobres, o que valorizo bastante. Compaixão pelo próximo é algo que não se adquire – ou você tem, ou não tem. No momento estou viajando muito pelo mundo, sem tempo para me dedicar à causa humanitária. Mas pretendo doar parte do que arrecado e investir em educação.

ÉPOCA – Você está feliz com seu trabalho? Quais são seus planos?
Mitnick – Estou curtindo. Além das dezenas de conferências pelo mundo, tenho me dedicado a meu segundo livro, que será publicado no ano que vem. Agora minha única preocupação é com a Defensive Thinking, minha empresa de consultoria. Quero torná-la líder no segmento de segurança da informação. Tenho paixão por tecnologia e sei que nunca vou conseguir me ver livre dela. Nem quero fazer isso. A intenção é desenvolver essa arte e criar propostas eficazes para proteger as empresas. Até agora vem dando tudo certo, não tenho do que me queixar. Só falta um pouco de tempo para relaxar.

in época

27 Respostas para “Entrevista com KEVIN MITNICK”

  1. Lucas de Oliveira Diz:

    Esse é o cara!

  2. cleiton novais Diz:

    Em primeiro lugar, quero saudar á ótima entrevista que fizeram com Kevin Mitnick, um dos maiores Hackers do Mundo.
    Admiro o Kevin!
    Meus Parabens para a revista época, pela espetacular entrevista, e principalmente parabens para o Kevin Mitnick.
    You are the best!
    Sou facinado por computador, por tecnologia, e sigo o seu exemplo, pretendo não invadir para roubar, mas sim por que sou curioso!
    Parabens Kevin!

    Att
    Cleiton Novais dos Santos

  3. Adriano Quintino Diz:

    Boa Noite!!! Gostaria de fazer uma pergunta. Naquela época o Kevin éra o cara, e hoje ele como é? continua sendo expert em computador?

    Obrigado

    Adriano, Redenção PA Brasil

  4. Unnamed Diz:

    Pergunta idiota, tolerância zero!
    Mas se prestar mais atenção vai perceber que na matéria diz que ele não eh mais o expert de antes. Isso não diz que deixou de ser um, só não eh como foi antes.

    Precisa desenhar também? :)

  5. flavio Diz:

    Kevin eu adimiro muito todo o seu conhecimento…
    Adoraria muito saber pelo menos metade doque vc sabe relacionado a informática…
    Mais estou me esforçando e dando o melhor de mim para que eu possa chegar onde eu quero…
    Também quero invadir computadores…
    Mais não quero pegar informações das pessoas eu quero apenas saber qual é a sensação de estar aceçando a máquina de outra pessoa distante de mim…
    Vlw…

  6. Lili Diz:

    Esse entrevista foi muito boa, e preciso conhecer uma pessoa dessas pessoas q nem, tenho problemas no orkut com minhas fotos que foram roubadas, e agora estao sendo usadas de forma ilegal

  7. Lili Diz:

    deixo meu email, leilirouge@hotmail.com, se alguem quiser me contactar moro em Paris, Franca

  8. Diego Maia Diz:

    Entrevista ótima para quem tem interesse em tecnologia e historia da informação uma coisa que mi chamou bem atenção foi que ele realmente apenas tinha curiosidade isso que dizer que o maior dos melhores não passava de um curioso, eu o admiro muito por seus lances de invasão mas com certeza isso também foi bom para seu futuro profissional parabéns a equipe da revista época gostei muito da entrevista.

  9. weber Diz:

    Essa sede insaceável de conhecimento é o que nos leva a novas descobertas kelvin é um ídolo na cultura hacker e sempre será. até porque devia der muito estranmho invasões antigamente pois não havia tanta gente com conhecimento em informática como hoje existe. E mais ainda a admiração vem por ele não ter sido nem super cara que trabalhava com informática e descobria vulnerabilidades e sim um simples garoto com força de vontade. Parabéns Kelvin.
    E parabéns pela entrevista.

  10. fabio Diz:

    bem com o avanço tecnologico tem muitas coisas evoluido ..
    na entrsvista com KEVIN Mitnick….ele deixou bem claro que …tem diversas formas de invadir um sistema…mas com o aumento de atualizações….tem que analisar as brechas…que o sistema te oferece..no causo do orkut…tem diversos filmes que mostram..como roubar senha do orkut…mas essas brechas..são arrumadas.ao passar do tempo….o kevin..so queria ter o prazer de invadir….não de roubar…

    anjolouco_20@hotmail.com

  11. fabio Diz:

    kevim….foi um grande Hacker que teve…depois que ele foi preso que apareceu as ultimas tecnologias….recentemente…ele é um gerente de segurança….se não me engano…a partir dele…que foi se vendo mas sobre Engenharia Socila…para leigos…a artes de invadir…
    quando vc invade…vc tem que ter ..versatilidade…é pensamentos rapidos..é prestar atenção no que vc ta fazendo…
    muitos lammers…crackers…scrip kiddes…não prestão é acabão caindo…

  12. Fernando Diz:

    eu gostei da sua historia e hoje voce é um vencedor e conhecido l parabens.

  13. Walter Bezerril Diz:

    KEVIN Mitnick,
    que seja louvado, sua interessante vontade de invadir, fico me perguntando, ele precisou ser prezo pra ser reconhecido!, porque ele não seguiu a estrada de um especialista de segurança, e não um fora da lei digital. Creio que pelo fato de ter feito a coisa errada, chamou atenção do mundo. Mas difícil é iniciar e terminar um projeto, e o fácil, é voçe ter todo o tempo da vida pra ver as falhas (caso microsoft). Reconhecimento justo é do Linus Torvalds.

  14. Lojas físicas precisam se reciclar | träsel/blog Diz:

    [...] A ausência de intermediação humana é mais confiável no fim das contas, até porque, como dizia Kevin Mitnick, “a engenharia social supera todas as tecnologias, inclusive [...]

  15. raider Diz:

    o cara la em cima fes uma pergunta se Kevin ainda era bom e o cara respondeu q ele n e o mesmo de antes
    e nao e o mesmo agora ele e melhor q antes o cara agora trabalha na maior empresa de segurança virtual do planeta ^^

  16. silvio Diz:

    maoee

    esse devia trabalhar no site da hebe!!

  17. Cluster Blake Diz:

    Eu admiro muito ele um cara muito inteligente, comecei nesse ramo quando percebi oque pderia fazer num computador porem sou novo, ainda vai acontecer muito comigo, oque mais admiro nele?Ele nao se considera um hacker apenas alguem que quer aprender, curioso esse sim eh o cara, espero um dia encontrar com ele na internet ou pessoalmente

  18. Paulo cmd Diz:

    Sem dúvidas, o cara é incrível.

    Eu não quero ser que nem ele, digamos, nem tanto. Eu me refiro a roubar, cujo o mesmo falou q não deseja pra ninguém, e não fez com objetivo em roubar.

    Eu quero aprender, apenas aprender.

  19. Carlos Diz:

    Incrível ler os idiotas que se acham hackers afirmando que querem invadir sistemas. Parece que gente idiota não aprende.

    Isso é moralmente errado. Não é porque você esqueceu a porta da sua casa aberta que alguém o direito de entrar nela, nem que seja por curiosidade. Isso chama-se invasão de domicílio. Em outros meios é invasão de privacidade.

    Mitcnick mereceu a cana que pegou. Parabéns ao Tsutomo Shimomura pelo feito!

  20. tuanny Diz:

    uma vez hacker,sempre hacker…
    o vicio toma conta de nossas vidas!!!
    admiro muito vc kevin…
    e pretendo ser melhor ainda do q vc algum dia foi!
    bjossss

  21. ***** Diz:

    Kevin Mitnick quero ser igual a vc um hacker muito poderoso

  22. alfa55 Diz:

    eu gostaria de saber o que ele acha do virus que tem a capacidade de destruir compudadores de todo mundo?

  23. CALDINHO DE CANA Diz:

    Olha senhor, vc sabe como invadir a rede globo de televisão???

  24. Grande Manaus Diz:

    Iniciei no mundo da Internet em meados de 2000 ,falava -se muito em Kevim Mitinick e até hoje ele é reverenciado , ele era unanimidade entre os hackers e entuasiatas , um verdadeiro ídolo ..

    Muitos sonham em obter pelo menos 1% do seus conhecimentos de teconologia , e eu no caso sempre acompanhei sua trajetória ..

    Kevim é um Mito ..


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